Adalberto dos Santos e J. Ventura
Mais uma vez era necessário encobertar as constantes saídas, disfarçar da atenciosa esposa, enganar a todos acerca de para onde ia, a que horas voltava. Ao menos três vezes por semana, este esforço. Se preciso, gaguejava, avermelhava, deixava-se baixar a vista, se punha ao sacrifício físico e moral da mentira.
“Está saindo demais”, dizia a mulher ao filho que acabara de chegar. “Pelo menos três vezes na semana é a mesma coisa: veste-se com toda elegância, perfuma-se, põe uma bolsa embaixo do braço, acende um cigarro e desce as escadas, nem lembra de pegar o elevador. Quando me dou conta, já tem sumido, só ouço o motor do carro e ele desaparecendo por essas ruas. Vai sem dizer nada, como se fosse normal um homem como ele, casado, com a esposa em casa, sair pela noite parecendo um ladrão, furtivo e desavergonhado”.
“E por que se preocupa tanto, mamãe?” - indagou o moço. “A senhora deveria pensar que o papai entendeu, de uma vez por todas, que jogado nessa poltrona empoeirada o dia inteiro só está dando sopa pra morte. De tanto pedir que desse umas voltinhas comigo por aí, vai que enjoou de estar direto dentro de casa”.
“É, mas quantas voltinhas vocês já deram juntos?”
“Nenhuma”.
“Então...”
“Então o que, mamãe?”
“Seu pai deve estar me passando a perna, não acha?”
“Como assim?”
“Ora, vai que ele arranjou uma amante e está enganando a gente”.
“Uma amante, na idade do papai?”
“Por que não? Seu pai não está tão acabado, Noel. Com a pouca vergonha de nossos dias, não precisa ser bonito ou jovem, qualquer interesseira é capaz de seduzir um homem”.
“Mas logo o papai, D. Margarida. Ele seria incapaz de traí-la”.
“E como você me explica essas saídas noturnas? Ele nunca foi disso. Alguma coisa deve estar acontecendo. Olha, até esta hora ainda não chegou”.
Após esse diálogo, D. Margarida sentou-se. Até então falava em pé, olhando aflita para o filho.
Noel viera correndo depois que ela disse por telefone que tinha um assunto muito sério para falar com ele. Estava ansiosa, sua voz era de uma preocupação angustiante. Mas ele não pensava que se tratava de uma coisa tão engraçada como esta.
Depois que ela lhe disse a história, fez uma cara de preocupado, enquanto continha um riso maroto que quase o desmascarava. Não queria deixá-la inquieta. Olhando-a séria dessa vez, tentou acalmá-la e disse-lhe que teria uma conversa com o Seu Antonio. Poderia ficar tranqüila, com o tempo tudo estaria resolvido. Mas agora precisava ir, tinha umas coisas para fazer.
O velho nunca fora bom de mentira. Em toda a vida, poucas vezes experimentou esconder ou forjar situações, quando o fazia, acabava se arrependendo e, vergonhosamente, se entregava. A mudança rápida de modos ao testar uma simples lorota, sempre lhe foi fatal na acusação, gaguejar, avermelhar, baixar a vista eram sinais de que estava blefando.
Os dois estavam casados há mais de 30 anos, moravam no vigésimo primeiro andar de um dos prédios mais caros da cidade, um luxuoso apartamento, presente do filho e da nora. Mudaram para ali logo que o filho casou. Era mais seguro. Já estavam velhos e precisavam de um lugar onde pudessem viver os resto dos dias. Mas, apesar do presente, ele nunca gostou do lugar. Costumava dizer que vivia num túmulo. Para onde olhava só se viam pedras, mármores, cimento, era como estar morto, fadado à frieza de um desses monumentais mausoléus modernos - metáfora inconsciente que usava para se referir aos enormes arranha-céus que cercavam aquele “modesto” condomínio.
A antiga casa era mais bonita, menos sofisticada, mas havia os amigos, os vizinhos e o prazer do bate-papo no fim da tarde. Podia-se sentar na calçada e olhar a noite caindo, as crianças brincando, subindo nos galhos das árvores, a algazarra dos botecos com suas sinucas suntuosas untadas de cervejas e conhecedoras das mais absurdas histórias. A farmácia era a dois passos, havia um supermercado e uma padaria bem perto. Aos domingos costumava ir à missa com a madame. Cinco minutos a pé era o bastante, na ida e na volta. Tudo era mais fácil. Ali era o lugar de se morar, ali gostaria de passar os últimos anos de sua vida.
Mas mudaram para a capital - escolha do filho e da esposa. Assim que mudaram, não havia um dia em que não se queixasse do que havia ficado para trás: conversas despreocupadas, botecos, barulhos, sinucas, crianças, galhos de árvores, o chão frio da calçada, e o que lhe dava mais calor aos olhos: o jardim.
No fundo do quintal, havia cultivado por longos anos um sem-número de espécies de flores. Por muito tempo pensou que morreria respirando o perfume daquele lugar. Por causa delas, sua casa recendia de cores e odores. Gostava de espalhar estrategicamente as mudas por todos os cantos, da sala à cozinha. Em sua casa havia mais vasos com pés de flores do que qualquer outra coisa. Os móveis eram poucos, os vãos bastante amplos, daí ele aproveitar o espaço ocioso para o deleite com a jardinagem.
No início do casamento, como ainda não tinham filhos, as flores iam tomando o lugar que as crianças depois ocupariam, segundo dizia. D. Margarida não gostava, porque era alérgica, e desde que ele inventou essa mania, comprou uma guerra com a mulher. Mas quando o filho nasceu, teve que diminuir o contingente de flores dentro de casa. Foi uma exigência da mulher, que ele acatou com lucidez, embora continuasse com o jardim.
O jardim, não. Este ele não deixaria. O quarto que parecia um éden com os mais variados tipos de flores, teve que ceder para a chegada do filho. Mas o jardim era tudo para ele.
No dia das bodas de prata do casal, o filho resolveu que eles iriam mudar. A nova casa estava comprada, um apartamento confortável na cidade grande. Ali, estariam mais perto do resto da família.
D. Margarida não fez questão, mas ele se lamentava, não queria ir, não deixaria seu jardim. Poderiam levar tudo, mas como levar sua preciosidade? Foi difícil convencê-lo. Quis contestar a mudança e acabou vencido. No fim das contas ele não mandava mais. Além de tudo, era a opinião da mulher e a do filho contra a dele.
Estavam na nova casa há pouco mais de cinco anos. Tudo ia muito bem até então, até começarem as saídas de que D. Margarida se queixava. Seu Antônio andava estranho. Nos últimos meses passou a mudar de comportamento. Seriam feridas causadas pela distância de sua antiga morada, mesmo depois de tanto tempo após a mudança? Ele disfarçava, mas talvez fosse. Quando interpelado, notavam que tinha uma mágoa e uma saudade embutidas. O certo é que estava alterado. Ultimamente passou a ficar sério com a esposa, calado, pouco comunicativo. Por isso ela começara a criar suspeitas sobre ele. Se não fosse a teimosia de pensar no passado, devia ser uma outra mulher que ele arranjou.
Na noite em que conversou com o filho sobre o assunto, Seu Antônio demorou a aparecer. Onde poderia estar? D. Margarida, nervosa, caiu doente. Já pela madrugada, ligou novamente para o filho.
Noel chegou vinte minutos depois. Ao saber o que se passava, tratou de tomar as providências. Não haveria de ser nada, garantiu. Mas dessa vez, também ficou preocupado. Agora era sério. Fez alguns telefonemas, tentou acalmar a mãe, depois saiu. Voltou uma hora depois.
Seu Antônio já estava em casa quando Noel voltou. D. Margarida disse que ele havia chegado assim que o filho saiu. Estava tão estranho como antes, não falou nada, entrou no quarto e deitou-se. Àquela altura já deveria estar dormindo.
Alegando dores de cabeça, D. Margarida pediu ao filho que ficasse um pouco, pelo menos até o pai acordar, talvez se os três conversassem pudessem resolver o problema. Noel concordou, mas achava um absurdo pressionar o pai. Segundo pensava, o velho estaria passando por uma fase, coisa de velhice, a mãe teria que aceitar isso. Aquela história de amante era coisa que ela havia inventado.
No quarto, Seu Antônio escutava a conversa dos dois. A fresta da janela, do lado esquerdo da cama, presenteava-o com os raios multicores das luzes noturnas. Olhando para elas, adormeceu. Em pouco tempo, cruzou o quintal. O sol alaranjado do entardecer tocava as faces das flores. Estava no jardim. O mais bonito, o mais perfumado e colorido jardim já cultivado em toda a sua vida. Sua mãe o ajudava a regar as plantas, ensinava-lhe cada espécie de flores, explicava cores, o tempo para plantá-las, como preparar mudas, quando desabrocham, quando não. Atento, observava cada coisa e ia aprendendo o valor de cultivar um jardim. Assim, a tarde morria, enquanto seus olhos comiam flores ao pé da porta.
Acordou na noite do dia seguinte.
“Acho que passam das oito”, pensou, ainda deitado. “A essa hora Noel já deve ter ido embora. Vou me arrumar”.
O silêncio se estendia por toda a casa. D. Margarida estava no outro quarto, talvez lendo uma revista.
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