SEIS PERSONAGENS FUGINDO DO AUTOR 1

De cara limpa    

Adalberto dos Santos

     Tem os lábios carnudos, grossos, bonitos, pele branca, se não me engano, fina, cara limpa, cheirosa, olhos azuis (de piscina, ela disse), um rabo enorme de cavalo e as bochechas rosadas.

     Idade, 23 aninhos. Plena saúde. Não bebe, não fuma, é atlético, luta jiu-jitsu, corre todas as tardes no calçadão da praia.

     Foi ali onde ela o encontrou. Disse que se apaixonou de súbito, sem reservas. Homem musculoso, atraente, grande, bem interessante, homem por quem, na certa, qualquer mulher se apaixonaria, tentou se explicar. Homem de cabelo grande, e além de tudo, de cara limpa, bochechas rosadas, um olho azul de piscina. Quase um semi-deus. Só sendo cega pra não ver um homem assim.

     Na terça saiu de casa depois do café. Voltou pelas quatro da tarde, esquisita, risonha, misteriosa. Não disse o que era. Quando perguntada, não quis responder. Estava evitando uma de suas famosas brigas. Foram duas semanas assim, fora de casa, oito, dez, doze, às vezes quinze horas completas.

     Um dia, fui ao calçadão, pela tarde. Era uma sexta-feira agitada, muita gente na praia, surfistas bombados, mocinhas saradas, crianças barulhentas, e a freguesia da caminhada vespertina. Cabeça baixa, andando, quase tropeço quando vejo os dois, mãos dadas, sorrindo, conversando, parecendo noivos. Não nos cruzamos, evitei que me vissem.

     Fiquei pensando que eu poderia. A partir de então, todos os dias, onde eu estivesse, minha cabeça não pensava outra coisa. E isso era bom porque aos poucos ia me convencendo de que realmente faria o que planejava.

     Passaram-se dez dias desde a primeira vez que os vi. Nesse intervalo, fui mais três ou quatro vezes à praia. Agora eu os seguia sempre que os via se aproximar: meu corpo, morto de inveja, meus olhos, castanhos e fundos, na mira dos deles, estranhos; e me mordia os lábios, faminto, esfregava os cabelos, cheirava o sovaco, apertava o rosto com as mãos, não sei o que era. Os dois abraçados, por horas; eu, um voyeur que se espia a si mesmo.

     Não posso deixar como está, digo quase gritando. Disse que faria, e farei, acabarei logo com isso.

     De dentro do ônibus, vejo-o passando. Está indo para a praia. Vou ter com ele. Pulo, o lotação ainda em movimento.

      - Ei, chamo-o antes que dobre a esquina.

     Quando ele se vira, corro para cima dele. Tenho uma lâmina num dos bolsos da calça. Primeiro dou-lhe dois socos, um do lado esquerdo, outro do lado direito. Ele cai. Fecha os olhos, contorcendo-se.

     Vejo uma lágrima tocar-lhe a pele, fria, enorme, transparente, limpinha. É uma lágrima somente, mas nela consigo me ver, estou reluzindo.

     Sorrio, por um instante.

     Não sei se estou certo, mas acho que minha expressão me liberta. Finalmente vinguei-me, digo com os olhos ao homem refletido na lágrima, que não tenho certeza se sou eu.

     Mas nunca me importo, realmente não me importa saber. Fico apenas pensando: nunca mais ela vai me dizer: São Jorge, ele parece com São Jorge. Não vai, porque agora vou retalhar a cara dele.

     Pronto, estou livre. Adeus, São Jorge.

     Agora vou pra minha casa. Mas antes, uma cervejinha naquele boteco. É cedo, há tempo de sobra. Pode ser que antes que anoiteça eu me arrependa, após engoli este primeiro copo.

SEIS PERSONAGENS FUGINDO DO AUTOR 2

A um passo da ira    

Adalberto dos Santos

     Meu coração é uma mistura como esta: uma sinfonia de Rimbaud, um drama de Van Gogh, um romance de Beethoven, uma pintura de William Shaskeapeare. Mas também sou uma barata de Alan Poe, um corvo de Franz Kafka; minha existência, toda a agonia de um Odisseu de James Joyce, ou a procura de um Ulisses de Homero. Matei, juntos, minha vida e minha morte, duma só vez. Agora, passam-se os dias, e tudo para mim é como se não fosse. Vivo como se existisse somente em mim mesmo, e não no mundo. Isso o que penso, essa matéria de bicho humano, não sou mais. Alguém queimou minha alma frígida. Mas juro, não lembro se estive confuso alguma vez.   

     Foram muitos anos. Milhares de horas conformado com minha própria mentira. Por isso às vezes me perguntava se não era de papel, se minha vida, por tanto malogro, não estaria num livro, se não nascera nas cores e tintas de algum gênio pintor, ou se, ao menos, numa única cena, não surgira como espectro em meio a alguma película de um cineasta famoso.

     Lembro que quando entrei na universidade eu tinha dúvidas acerca de se realmente existia. Até então custava saber se era mentira ou não. Depois, não demorou pra que a confusão deixasse de vez minha cabeça. Por fim, descobri isso. Nas primeiras aulas de Filosofia o professor falava sobre o ser e o conhecer, essas coisas absurdas. Mas eu, eu olhei pra ele assim: sincero. Uma única vez na vida fui sincero. Ele temia que eu soubesse, que o desmascarasse. Então falei. De ouvir dizer que jamais um homem pode ver a si mesmo além do espelho, furei o olho do meu preceptor pra ele deixar de enganação. Tudo falso, eu disse, nada do que vocês disseram e o que mais venham a dizer terá maior valor que isto: somos falsos, professor. E ali, em plena sexta-feira, descansei. Acabara de criar minha maior verdade, e, contraditoriamente, minha mais pura mentira.

     Quando me formei, já era tarde. Entrei na onda de que minha vida era de verdade. Logo arranjei emprego, fiz um monte de amigos, com o tempo era um cidadão exemplar no meio em que vivia. Nos primeiros anos comecei a ganhar muito dinheiro. Comprei uma casa, um carro, depois, um monte de coisas bobas que jamais usei. Passei a freqüentar os lugares mais bacanas, conheci as pessoas mais interessantes. Mas trabalhei muito pra isso. Trabalhei tanto que algumas pessoas me chamavam de o homem-trabalho, de tanto que me dava ao luxo dos meus afazeres. Só que me recompensava, eu tinha tudo o que sempre quis. Poucos os de minha profissão tinham o que desejavam, e poucos conseguiam as coisas assim como eu. E assim causava inveja nas pessoas. Eu era um professor de filosofia dos mais requisitados da minha região. Dava aulas em até dez universidades por semana, de segunda a sexta. Às vezes, quando não me doíam as costas de dirigir ou carregar meus livros, aproveitava o sábado para ganhar um extra, e aumentar minha fortuna. De repente estava rico, a custo do meu próprio esforço. Havia gente que entendia isso, outras, no entanto, se perguntavam se não haveria uma outra coisa por trás de meu sucesso, se não negociava às escondidas, se não optara por algum meio ilícito para chegar onde cheguei.

     A madrugada fria não bastou pra que continuasse deitado. Levantei, olhei o relógio, vi minhas coisas na cabeceira. Em uma hora começaria minha jornada. Daria tempo tomar banho, comer alguma coisa e seguir rumo às primeiras aulas do dia. No banho fiquei pensando na vida. Eu não era alegre, eu não tinha alegria. Se os homens se pusessem a investigar o mundo à procura do ser mais infeliz que havia, este seria eu. O que eu tinha não era nada. Lembrava dos livros que havia lido, das idéias de alguns filósofos, e me convencia de que minha natureza era de um homem que nunca tivera coisa alguma.

     Enquanto a água descia sobre o corpo, fazia essas reflexões, e era com dificuldade que as fazia, como se pensasse pela primeira vez. Achei estranho aquilo. Um professor de filosofia, acostumado a desvendar os mais difíceis textos da história do pensamento humano, a compreender o hermetismo do discurso filosófico, a debater as questões primordiais da natureza do mundo, com dificuldades para pensar. Bastou-me esse bloqueio de raciocínio; constrangido, tomei, enfim, minha decisão. Não iria mais dar aulas, não me comprometeria com mais ninguém. Tinha dinheiro bastante para passar um bom tempo sem que ficasse preso a compromissos, tinha nome, um lugar para morar, poderia passar bem sem que ousasse me desgastar com o mundo.

     Vesti minha roupa e comecei a olhar a avalanche de livros espalhados ao longo da casa. Foi aí que aprofundei meu pensamento. Eu não era culpado. Há muito que havia abandonado a Filosofia. Meu erro foi outro. Se naquele instante me perguntassem o que gostaria de ter feito, eu saberia responder. Imaginei o exato momento em que me perdi. Quando me pegaram, eu deveria ter mandado que se perguntassem sozinhos sobre os nossos problemas, que me deixassem em paz.

     Mas ela era muito bonita para que eu conseguisse fugir. Entre a outra e ela, fiquei com Sophia. Quando a vi, descobri que se haveria de viver como mentira, escolheria coisa mais concreta que essas falsas verdades que nos aprisionam. Não seriam as contradições de uma cátedra nem a ilusão de uma vida algo sem sentido que me fariam não tomar decisões. Por isso escolhi Sophia. O negócio era escolher algo. Assim era melhor: entre passar a vida metendo-se a besta e indiferente com outros menos abestados do que eu, melhor ficar ao lado dela. Foi o que fiz.

     Sophia foi o único amor da minha vida, e o meu único erro. Ela quem me deu brechas de olhar o mundo. Era minha realidade. Sophia era o princípio e o fim de tudo o que eu esperava. Quando a encontrei supunha tímidos fragmentos de vida, não me tinha o respeito que antes não tinha, era incompleto. Com ela aprendi tudo. Que a vida pode esperar o quanto a gente queira, que as coisas padecem de tontas embaixo do sol, que a luta é um desprezo da natureza pelos homens, que mais vale estar ébrio que estar só no meio dos bêbados, que isso, que aquilo, que iss’outro. Ela me ensinou tudo.

     Vivemos exatas 43 milhares de horas. Foi o tempo ideal pra que me fizesse o homem mais sábio do mundo. Por causa de Sophia eu soube todos os livros das religiões, os tratados sobre arte, os ensaios de política, as matemáticas da economia, as literaturas, todos as ciências, todas as filosofias. Só não soube de mim. Nunca consegui me aprender.

     Mas chega um dia e ela foge de casa. Leva consigo tudo o que sei. É de manhã cedo quando se levanta, me pega pelo braço, me põe numa pequena sacola, e se manda. Nem ao menos olha para trás. Cai na falsa claridade do dia como se fugisse de um algum fantasma.

     Fico só na cama, quieto, e imagino que essas coisa não estão acontecendo. Durmo alguns minutos, depois acordo, atônito. Uma confusão de sons humanos me desperta. Gente conversando, crianças gritando, pessoas correndo de um lado pro outro, uma multidão feia, boba, estúpida, injusta e infeliz. De repente, sinto que estou longe de casa, mas não sei de onde venho. Esfrego os olhos pra ver se consigo me recompor, ao tempo em que tento me lembrar de alguma coisa. Minha cabeça dói, meu corpo chameja de febre. Procuro respirar, devagar para ver se agora penso um pouco.

     Pelo menos uma vez na vida a gente tem que sair desses lugares feitos por mãos alheias, lugares que nos prendem, sair e mandar brasa, mandar em nossa vida. Não pode um homem ser tão frágil que não saiba pôr abaixo uma coisa dessas. Ninguém pode amar à força. Nesse caso é inútil tentar o altruísmo, a bondade, ou outro qualquer sentimento.

     Sou apenas um homem cheio de esperanças. Por favor, aprovem essa loucura. Nunca estive assim, a um passo da ira. Só por isso e por nada mais me justifico. Se choro agora é porque veio a alegria. Um dia ela chega, quanto menos se anseia, abrimos a porta e ela nos espera sentada no sofá. Seus olhos são puros, de dentro deles corre uma verdade secreta com qual sempre sonhamos: o que um dia foi amado é fruto do ódio. Só isto é a verdade. O ódio é Sophia.

     Agora estou em um supermercado. Percorro as seções com um carrinho de compras, mas nada me agrada. Antes de me tornar professor, achava que poderia ser feliz dentro desses ambientes cheios de gente e com ar-condicionado. Durante a vida inteira pensei assim. Olha o que deu. Nada, nem ao menos tenho prazer dentro de um supermercado.

     Como se precisasse, vou botando algumas coisas dentro do carrinho. Na verdade, não desejo nada, não preciso de nenhuma dessas coisas. O que procuro parece não ter. Mesmo assim vou comprando umas besteiras. Compro isso, compro aquilo, levo esse outro, meu dinheiro é muito. Finalmente, encontro o que quero. Como que em transe, quase viro para trás. Minha cabeça está exposta numa das prateleiras da seção de frios. Ela me olha com a cara mais feia do mundo. Está triste. Por quê? Sorrio. Pego-a devagar e alegre. Coloco-a dentro do carrinho e vou em direção ao caixa.

     Aceno para uma desconhecida que passa por mim na saída do estacionamento. De repente... essa mulher... me lembra Sophia. Digo que estou levando minha cabeça pro almoço. Ela não escuta, apenas me olha, mas é como se não me visse. Do retrovisor interno vejo-a sumir. Vai ficando para trás. Corro o mais depressa que posso. Quero chegar logo pra preparar meu almoço, antes que minha cabeça desapareça dentro de algum livro.




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