METÁFORAS BOVINAS

Francisco Dantas

Certo dia era um Boi que, na virtude do cio, tructructiava atrás dos folgados traseiros de uma Vaca triste. Do por que a Vaca era triste nem o Boi desconfiava, que, na virtude do cio, Boi é gente. O negócio é que interessa. Fazer primeiro. Pensar depois. Se for o caso. Essa é a filosofia do Boi, que sempre faz e nunca pensa, porque pensar é coisa de gente e gente que pensa, que pensa, nada de animais faz. A carne, a flor. A flor da Vaca aberta para o Boi. Passiva. Sem não-tristeza. Sei não! Não compreendo o mistério que envolve a tristeza humana da Vaca na virtude do cio que consume o Boi, e que parece estranho à Vaca? Boi taludo em Vaca triste tanto fura até que bate uma gozada. Penetração-fundura-estremecimento-espuma-suor-bate-que-bate, até que, batido, se ouve um estrondoso mugido ressoando pela Fazenda inteira. O Boi está satisfeito, está troteando na virtude do cio pelas campinas azuis-verdejantes atrás de outras Vacas tristes. Até fechar-se o ciclo e suspender-se a virtude do cio, cio, cio... Silêncio, que o Boi vai dormir.

Barulho, que o Boi acordou. Não Boi qualquer, mas qualquer Boi a pastar pelas campinas azuis-verdejantes, agora amarelas, atrás de Vacas-Vacas-Vacas e mais Vacas. Vacas tristes na virtude do cio que nunca se esgota, porque quem se esgota é gente e gente não é boi. Mas Boi é gente pensando na flor da Vaca aberta para o mundo das campinas verdejantes-azuis não mais amarelas. Barulho, que o Boi acordou disparado dando carreiras de felicidade pelas bem-aventuradas virtudes do cio.

A Vaca. Vaca esguia. Vaca esquiva. Difícil penetração. Boi-Vaca, conluio misterioso, inocente. Não é tempo do cio. Tudo é ternura de pasto, fofura de Boi, tolete de Vaca que cai com muito barulho no fofo da terra estrumada, estreme, estremecida, amada. Pátria amada. O pasto. Boi-imitação. Atrás da Vaca, da Vaca de trás. Contemplando o traseiro. Desinteressado, indiferente. Não é tempo do cio. Silêncio. Boi e Vaca dormem. O Brasil dorme.

A AMANTE

Adalberto dos Santos e J. Ventura

 

            Mais uma vez era necessário encobertar as constantes saídas, disfarçar da atenciosa esposa, enganar a todos acerca de para onde ia, a que horas voltava. Ao menos três vezes por semana, este esforço. Se preciso, gaguejava, avermelhava, deixava-se baixar a vista, se punha ao sacrifício físico e moral da mentira.

            “Está saindo demais”, dizia a mulher ao filho que acabara de chegar. “Pelo menos três vezes na semana é a mesma coisa: veste-se com toda elegância, perfuma-se, põe uma bolsa embaixo do braço, acende um cigarro e desce as escadas, nem lembra de pegar o elevador. Quando me dou conta, já tem sumido, só ouço o motor do carro e ele desaparecendo por essas ruas. Vai sem dizer nada, como se fosse normal um homem como ele, casado, com a esposa em casa, sair pela noite parecendo um ladrão, furtivo e desavergonhado”.

            “E por que se preocupa tanto, mamãe?” - indagou o moço. “A senhora deveria pensar que o papai entendeu, de uma vez por todas, que jogado nessa poltrona empoeirada o dia inteiro só está dando sopa pra morte. De tanto pedir que desse umas voltinhas comigo por aí, vai que enjoou de estar direto dentro de casa”.

 

            “É, mas quantas voltinhas vocês já deram juntos?”

            “Nenhuma”.

            “Então...”

            “Então o que, mamãe?”

            “Seu pai deve estar me passando a perna, não acha?”

            “Como assim?”

            “Ora, vai que ele arranjou uma amante e está enganando a gente”.

            “Uma amante, na idade do papai?”

            “Por que não?  Seu pai não está tão acabado, Noel. Com a pouca vergonha de nossos dias, não precisa ser bonito ou jovem, qualquer interesseira é capaz de seduzir um homem”.

            “Mas logo o papai, D. Margarida. Ele seria incapaz de traí-la”.

            “E como você me explica essas saídas noturnas? Ele nunca foi disso. Alguma coisa deve estar acontecendo. Olha, até esta hora ainda não chegou”.

            Após esse diálogo, D. Margarida sentou-se. Até então falava em pé, olhando aflita para o filho.

            Noel viera correndo depois que ela disse por telefone que tinha um assunto muito sério para falar com ele. Estava ansiosa, sua voz era de uma preocupação angustiante. Mas ele não pensava que se tratava de uma coisa tão engraçada como esta.

            Depois que ela lhe disse a história, fez uma cara de preocupado, enquanto continha um riso maroto que quase o desmascarava. Não queria deixá-la inquieta. Olhando-a séria dessa vez, tentou acalmá-la e disse-lhe que teria uma conversa com o Seu Antonio. Poderia ficar tranqüila, com o tempo tudo estaria resolvido. Mas agora precisava ir, tinha umas coisas para fazer.

            O velho nunca fora bom de mentira. Em toda a vida, poucas vezes experimentou esconder ou forjar situações, quando o fazia, acabava se arrependendo e, vergonhosamente, se entregava. A mudança rápida de modos ao testar uma simples lorota, sempre lhe foi fatal na acusação, gaguejar, avermelhar, baixar a vista eram sinais de que estava blefando.

             “Está mentindo, senhor!” - brincava o filho desde pequeno quando o flagrava em situações embaraçosas.

            Os dois estavam casados há mais de 30 anos, moravam no vigésimo primeiro andar de um dos prédios mais caros da cidade, um luxuoso apartamento, presente do filho e da nora. Mudaram para ali logo que o filho casou. Era mais seguro. Já estavam velhos e precisavam de um lugar onde pudessem viver os resto dos dias. Mas, apesar do presente, ele nunca gostou do lugar. Costumava dizer que vivia num túmulo. Para onde olhava só se viam pedras, mármores, cimento, era como estar morto, fadado à frieza de um desses monumentais mausoléus modernos - metáfora inconsciente que usava para se referir aos enormes arranha-céus que cercavam aquele “modesto” condomínio.

            A antiga casa era mais bonita, menos sofisticada, mas havia os amigos, os vizinhos e o prazer do bate-papo no fim da tarde. Podia-se sentar na calçada e olhar a noite caindo, as crianças brincando, subindo nos galhos das árvores, a algazarra dos botecos com suas sinucas suntuosas untadas de cervejas e conhecedoras das mais absurdas histórias. A farmácia era a dois passos, havia um supermercado e uma padaria bem perto. Aos domingos costumava ir à missa com a madame. Cinco minutos a pé era o bastante, na ida e na volta. Tudo era mais fácil. Ali era o lugar de se morar, ali gostaria de passar os últimos anos de sua vida.

            Mas mudaram para a capital - escolha do filho e da esposa. Assim que mudaram, não havia um dia em que não se queixasse do que havia ficado para trás: conversas despreocupadas, botecos, barulhos, sinucas, crianças, galhos de árvores, o chão frio da calçada, e o que lhe dava mais calor aos olhos: o jardim.

            No fundo do quintal, havia cultivado por longos anos um sem-número de espécies de flores. Por muito tempo pensou que morreria respirando o perfume daquele lugar. Por causa delas, sua casa recendia de cores e odores. Gostava de espalhar estrategicamente as mudas por todos os cantos, da sala à cozinha.  Em sua casa havia mais vasos com pés de flores do que qualquer outra coisa. Os móveis eram poucos, os vãos bastante amplos, daí ele aproveitar o espaço ocioso para o deleite com a jardinagem.

            No início do casamento, como ainda não tinham filhos, as flores iam tomando o lugar que as crianças depois ocupariam, segundo dizia. D. Margarida não gostava, porque era alérgica, e desde que ele inventou essa mania, comprou uma guerra com a mulher. Mas quando o filho nasceu, teve que diminuir o contingente de flores dentro de casa. Foi uma exigência da mulher, que ele acatou com lucidez, embora continuasse com o jardim.

            O jardim, não. Este ele não deixaria. O quarto que parecia um éden com os mais variados tipos de flores, teve que ceder para a chegada do filho. Mas o jardim era tudo para ele.

           

          As flores, as venerava como a uma espécie de segunda esposa, com quem dividia o carinho. Ciumento, ninguém poderia tocá-las, nem ao menos chegar perto. Caso contrário, ele explodia de raiva. Separava pelo menos uma ou duas horas do dia para cuidar de seus mimos. Mas D. Margarida dizia que para ele as flores eram mais importantes do que ela e o próprio filho. E talvez estivesse certa, tanto que se dava ao luxo de contemplá-las com um orgulho de extrema devoção. Conversava com as flores, contava histórias pra elas, as via anoitecer e amanhecer. Um dia, passou tanto tempo cuidando delas que perdeu a hora. Só foi encontrado depois que a mulher e os vizinhos se revezaram à sua procura. Estava dormindo embaixo de um enorme pé de begônia, em cima de uma cama de folhas, pétalas e lama.

            No dia das bodas de prata do casal, o filho resolveu que eles iriam mudar. A nova casa estava comprada, um apartamento confortável na cidade grande. Ali, estariam mais perto do resto da família.

            D. Margarida não fez questão, mas ele se lamentava, não queria ir, não deixaria seu jardim. Poderiam levar tudo, mas como levar sua preciosidade? Foi difícil convencê-lo. Quis contestar a mudança e acabou vencido. No fim das contas ele não mandava mais. Além de tudo, era a opinião da mulher e a do filho contra a dele.

            Estavam na nova casa há pouco mais de cinco anos. Tudo ia muito bem até então, até começarem as saídas de que D. Margarida se queixava. Seu Antônio andava estranho. Nos últimos meses passou a mudar de comportamento. Seriam feridas causadas pela distância de sua antiga morada, mesmo depois de tanto tempo após a mudança? Ele disfarçava, mas talvez fosse. Quando interpelado, notavam que tinha uma mágoa e uma saudade embutidas. O certo é que estava alterado. Ultimamente passou a ficar sério com a esposa, calado, pouco comunicativo. Por isso ela começara a criar suspeitas sobre ele. Se não fosse a teimosia de pensar no passado, devia ser uma outra mulher que ele arranjou.

             Na noite em que conversou com o filho sobre o assunto, Seu Antônio demorou a aparecer. Onde poderia estar? D. Margarida, nervosa, caiu doente. Já pela madrugada, ligou novamente para o filho.

            Noel chegou vinte minutos depois. Ao saber o que se passava, tratou de tomar as providências. Não haveria de ser nada, garantiu. Mas dessa vez, também ficou preocupado. Agora era sério. Fez alguns telefonemas, tentou acalmar a mãe, depois saiu. Voltou uma hora depois.

            Seu Antônio já estava em casa quando Noel voltou. D. Margarida disse que ele havia chegado assim que o filho saiu. Estava tão estranho como antes, não falou nada, entrou no quarto e deitou-se. Àquela altura já deveria estar dormindo.

            Alegando dores de cabeça, D. Margarida pediu ao filho que ficasse um pouco, pelo menos até o pai acordar, talvez se os três conversassem pudessem resolver o problema. Noel concordou, mas achava um absurdo pressionar o pai. Segundo pensava, o velho estaria passando por uma fase, coisa de velhice, a mãe teria que aceitar isso. Aquela história de amante era coisa que ela havia inventado.

            No quarto, Seu Antônio escutava a conversa dos dois. A fresta da janela, do lado esquerdo da cama, presenteava-o com os raios multicores das luzes noturnas. Olhando para elas, adormeceu. Em pouco tempo, cruzou o quintal. O sol alaranjado do entardecer tocava as faces das flores. Estava no jardim. O mais bonito, o mais perfumado e colorido jardim já cultivado em toda a sua vida. Sua mãe o ajudava a regar as plantas, ensinava-lhe cada espécie de flores, explicava cores, o tempo para plantá-las, como preparar mudas, quando desabrocham, quando não. Atento, observava cada coisa e ia aprendendo o valor de cultivar um jardim. Assim, a tarde morria, enquanto seus olhos comiam flores ao pé da porta.

            Acordou na noite do dia seguinte.

            “Acho que passam das oito”, pensou, ainda deitado. “A essa hora Noel já deve ter ido embora. Vou me arrumar”.

            O silêncio se estendia por toda a casa. D. Margarida estava no outro quarto, talvez lendo uma revista.

            Mais uma vez era necessário encobertar as constantes saídas, disfarçar da atenciosa esposa, enganar a todos acerca de para onde ia, a que horas voltava. Ao menos três vezes por semana, este esforço. Se preciso, gaguejava, avermelhava, deixava-se baixar a vista, se punha ao sacrifício físico e moral da mentira. Mas mentia, era dos mais desengonçados mentirosos. Pensava que valia a pena essa via-crúcis, o que não podia era adiar o encontro, as carícias, as promessas amantes do jardim da praça municipal.
SEIS PERSONAGENS FUGINDO DO AUTOR 1

De cara limpa    

Adalberto dos Santos

     Tem os lábios carnudos, grossos, bonitos, pele branca, se não me engano, fina, cara limpa, cheirosa, olhos azuis (de piscina, ela disse), um rabo enorme de cavalo e as bochechas rosadas.

     Idade, 23 aninhos. Plena saúde. Não bebe, não fuma, é atlético, luta jiu-jitsu, corre todas as tardes no calçadão da praia.

     Foi ali onde ela o encontrou. Disse que se apaixonou de súbito, sem reservas. Homem musculoso, atraente, grande, bem interessante, homem por quem, na certa, qualquer mulher se apaixonaria, tentou se explicar. Homem de cabelo grande, e além de tudo, de cara limpa, bochechas rosadas, um olho azul de piscina. Quase um semi-deus. Só sendo cega pra não ver um homem assim.

     Na terça saiu de casa depois do café. Voltou pelas quatro da tarde, esquisita, risonha, misteriosa. Não disse o que era. Quando perguntada, não quis responder. Estava evitando uma de suas famosas brigas. Foram duas semanas assim, fora de casa, oito, dez, doze, às vezes quinze horas completas.

     Um dia, fui ao calçadão, pela tarde. Era uma sexta-feira agitada, muita gente na praia, surfistas bombados, mocinhas saradas, crianças barulhentas, e a freguesia da caminhada vespertina. Cabeça baixa, andando, quase tropeço quando vejo os dois, mãos dadas, sorrindo, conversando, parecendo noivos. Não nos cruzamos, evitei que me vissem.

     Fiquei pensando que eu poderia. A partir de então, todos os dias, onde eu estivesse, minha cabeça não pensava outra coisa. E isso era bom porque aos poucos ia me convencendo de que realmente faria o que planejava.

     Passaram-se dez dias desde a primeira vez que os vi. Nesse intervalo, fui mais três ou quatro vezes à praia. Agora eu os seguia sempre que os via se aproximar: meu corpo, morto de inveja, meus olhos, castanhos e fundos, na mira dos deles, estranhos; e me mordia os lábios, faminto, esfregava os cabelos, cheirava o sovaco, apertava o rosto com as mãos, não sei o que era. Os dois abraçados, por horas; eu, um voyeur que se espia a si mesmo.

     Não posso deixar como está, digo quase gritando. Disse que faria, e farei, acabarei logo com isso.

     De dentro do ônibus, vejo-o passando. Está indo para a praia. Vou ter com ele. Pulo, o lotação ainda em movimento.

      - Ei, chamo-o antes que dobre a esquina.

     Quando ele se vira, corro para cima dele. Tenho uma lâmina num dos bolsos da calça. Primeiro dou-lhe dois socos, um do lado esquerdo, outro do lado direito. Ele cai. Fecha os olhos, contorcendo-se.

     Vejo uma lágrima tocar-lhe a pele, fria, enorme, transparente, limpinha. É uma lágrima somente, mas nela consigo me ver, estou reluzindo.

     Sorrio, por um instante.

     Não sei se estou certo, mas acho que minha expressão me liberta. Finalmente vinguei-me, digo com os olhos ao homem refletido na lágrima, que não tenho certeza se sou eu.

     Mas nunca me importo, realmente não me importa saber. Fico apenas pensando: nunca mais ela vai me dizer: São Jorge, ele parece com São Jorge. Não vai, porque agora vou retalhar a cara dele.

     Pronto, estou livre. Adeus, São Jorge.

     Agora vou pra minha casa. Mas antes, uma cervejinha naquele boteco. É cedo, há tempo de sobra. Pode ser que antes que anoiteça eu me arrependa, após engoli este primeiro copo.

SEIS PERSONAGENS FUGINDO DO AUTOR 2

A um passo da ira    

Adalberto dos Santos

     Meu coração é uma mistura como esta: uma sinfonia de Rimbaud, um drama de Van Gogh, um romance de Beethoven, uma pintura de William Shaskeapeare. Mas também sou uma barata de Alan Poe, um corvo de Franz Kafka; minha existência, toda a agonia de um Odisseu de James Joyce, ou a procura de um Ulisses de Homero. Matei, juntos, minha vida e minha morte, duma só vez. Agora, passam-se os dias, e tudo para mim é como se não fosse. Vivo como se existisse somente em mim mesmo, e não no mundo. Isso o que penso, essa matéria de bicho humano, não sou mais. Alguém queimou minha alma frígida. Mas juro, não lembro se estive confuso alguma vez.   

     Foram muitos anos. Milhares de horas conformado com minha própria mentira. Por isso às vezes me perguntava se não era de papel, se minha vida, por tanto malogro, não estaria num livro, se não nascera nas cores e tintas de algum gênio pintor, ou se, ao menos, numa única cena, não surgira como espectro em meio a alguma película de um cineasta famoso.

     Lembro que quando entrei na universidade eu tinha dúvidas acerca de se realmente existia. Até então custava saber se era mentira ou não. Depois, não demorou pra que a confusão deixasse de vez minha cabeça. Por fim, descobri isso. Nas primeiras aulas de Filosofia o professor falava sobre o ser e o conhecer, essas coisas absurdas. Mas eu, eu olhei pra ele assim: sincero. Uma única vez na vida fui sincero. Ele temia que eu soubesse, que o desmascarasse. Então falei. De ouvir dizer que jamais um homem pode ver a si mesmo além do espelho, furei o olho do meu preceptor pra ele deixar de enganação. Tudo falso, eu disse, nada do que vocês disseram e o que mais venham a dizer terá maior valor que isto: somos falsos, professor. E ali, em plena sexta-feira, descansei. Acabara de criar minha maior verdade, e, contraditoriamente, minha mais pura mentira.

     Quando me formei, já era tarde. Entrei na onda de que minha vida era de verdade. Logo arranjei emprego, fiz um monte de amigos, com o tempo era um cidadão exemplar no meio em que vivia. Nos primeiros anos comecei a ganhar muito dinheiro. Comprei uma casa, um carro, depois, um monte de coisas bobas que jamais usei. Passei a freqüentar os lugares mais bacanas, conheci as pessoas mais interessantes. Mas trabalhei muito pra isso. Trabalhei tanto que algumas pessoas me chamavam de o homem-trabalho, de tanto que me dava ao luxo dos meus afazeres. Só que me recompensava, eu tinha tudo o que sempre quis. Poucos os de minha profissão tinham o que desejavam, e poucos conseguiam as coisas assim como eu. E assim causava inveja nas pessoas. Eu era um professor de filosofia dos mais requisitados da minha região. Dava aulas em até dez universidades por semana, de segunda a sexta. Às vezes, quando não me doíam as costas de dirigir ou carregar meus livros, aproveitava o sábado para ganhar um extra, e aumentar minha fortuna. De repente estava rico, a custo do meu próprio esforço. Havia gente que entendia isso, outras, no entanto, se perguntavam se não haveria uma outra coisa por trás de meu sucesso, se não negociava às escondidas, se não optara por algum meio ilícito para chegar onde cheguei.

     A madrugada fria não bastou pra que continuasse deitado. Levantei, olhei o relógio, vi minhas coisas na cabeceira. Em uma hora começaria minha jornada. Daria tempo tomar banho, comer alguma coisa e seguir rumo às primeiras aulas do dia. No banho fiquei pensando na vida. Eu não era alegre, eu não tinha alegria. Se os homens se pusessem a investigar o mundo à procura do ser mais infeliz que havia, este seria eu. O que eu tinha não era nada. Lembrava dos livros que havia lido, das idéias de alguns filósofos, e me convencia de que minha natureza era de um homem que nunca tivera coisa alguma.

     Enquanto a água descia sobre o corpo, fazia essas reflexões, e era com dificuldade que as fazia, como se pensasse pela primeira vez. Achei estranho aquilo. Um professor de filosofia, acostumado a desvendar os mais difíceis textos da história do pensamento humano, a compreender o hermetismo do discurso filosófico, a debater as questões primordiais da natureza do mundo, com dificuldades para pensar. Bastou-me esse bloqueio de raciocínio; constrangido, tomei, enfim, minha decisão. Não iria mais dar aulas, não me comprometeria com mais ninguém. Tinha dinheiro bastante para passar um bom tempo sem que ficasse preso a compromissos, tinha nome, um lugar para morar, poderia passar bem sem que ousasse me desgastar com o mundo.

     Vesti minha roupa e comecei a olhar a avalanche de livros espalhados ao longo da casa. Foi aí que aprofundei meu pensamento. Eu não era culpado. Há muito que havia abandonado a Filosofia. Meu erro foi outro. Se naquele instante me perguntassem o que gostaria de ter feito, eu saberia responder. Imaginei o exato momento em que me perdi. Quando me pegaram, eu deveria ter mandado que se perguntassem sozinhos sobre os nossos problemas, que me deixassem em paz.

     Mas ela era muito bonita para que eu conseguisse fugir. Entre a outra e ela, fiquei com Sophia. Quando a vi, descobri que se haveria de viver como mentira, escolheria coisa mais concreta que essas falsas verdades que nos aprisionam. Não seriam as contradições de uma cátedra nem a ilusão de uma vida algo sem sentido que me fariam não tomar decisões. Por isso escolhi Sophia. O negócio era escolher algo. Assim era melhor: entre passar a vida metendo-se a besta e indiferente com outros menos abestados do que eu, melhor ficar ao lado dela. Foi o que fiz.

     Sophia foi o único amor da minha vida, e o meu único erro. Ela quem me deu brechas de olhar o mundo. Era minha realidade. Sophia era o princípio e o fim de tudo o que eu esperava. Quando a encontrei supunha tímidos fragmentos de vida, não me tinha o respeito que antes não tinha, era incompleto. Com ela aprendi tudo. Que a vida pode esperar o quanto a gente queira, que as coisas padecem de tontas embaixo do sol, que a luta é um desprezo da natureza pelos homens, que mais vale estar ébrio que estar só no meio dos bêbados, que isso, que aquilo, que iss’outro. Ela me ensinou tudo.

     Vivemos exatas 43 milhares de horas. Foi o tempo ideal pra que me fizesse o homem mais sábio do mundo. Por causa de Sophia eu soube todos os livros das religiões, os tratados sobre arte, os ensaios de política, as matemáticas da economia, as literaturas, todos as ciências, todas as filosofias. Só não soube de mim. Nunca consegui me aprender.

     Mas chega um dia e ela foge de casa. Leva consigo tudo o que sei. É de manhã cedo quando se levanta, me pega pelo braço, me põe numa pequena sacola, e se manda. Nem ao menos olha para trás. Cai na falsa claridade do dia como se fugisse de um algum fantasma.

     Fico só na cama, quieto, e imagino que essas coisa não estão acontecendo. Durmo alguns minutos, depois acordo, atônito. Uma confusão de sons humanos me desperta. Gente conversando, crianças gritando, pessoas correndo de um lado pro outro, uma multidão feia, boba, estúpida, injusta e infeliz. De repente, sinto que estou longe de casa, mas não sei de onde venho. Esfrego os olhos pra ver se consigo me recompor, ao tempo em que tento me lembrar de alguma coisa. Minha cabeça dói, meu corpo chameja de febre. Procuro respirar, devagar para ver se agora penso um pouco.

     Pelo menos uma vez na vida a gente tem que sair desses lugares feitos por mãos alheias, lugares que nos prendem, sair e mandar brasa, mandar em nossa vida. Não pode um homem ser tão frágil que não saiba pôr abaixo uma coisa dessas. Ninguém pode amar à força. Nesse caso é inútil tentar o altruísmo, a bondade, ou outro qualquer sentimento.

     Sou apenas um homem cheio de esperanças. Por favor, aprovem essa loucura. Nunca estive assim, a um passo da ira. Só por isso e por nada mais me justifico. Se choro agora é porque veio a alegria. Um dia ela chega, quanto menos se anseia, abrimos a porta e ela nos espera sentada no sofá. Seus olhos são puros, de dentro deles corre uma verdade secreta com qual sempre sonhamos: o que um dia foi amado é fruto do ódio. Só isto é a verdade. O ódio é Sophia.

     Agora estou em um supermercado. Percorro as seções com um carrinho de compras, mas nada me agrada. Antes de me tornar professor, achava que poderia ser feliz dentro desses ambientes cheios de gente e com ar-condicionado. Durante a vida inteira pensei assim. Olha o que deu. Nada, nem ao menos tenho prazer dentro de um supermercado.

     Como se precisasse, vou botando algumas coisas dentro do carrinho. Na verdade, não desejo nada, não preciso de nenhuma dessas coisas. O que procuro parece não ter. Mesmo assim vou comprando umas besteiras. Compro isso, compro aquilo, levo esse outro, meu dinheiro é muito. Finalmente, encontro o que quero. Como que em transe, quase viro para trás. Minha cabeça está exposta numa das prateleiras da seção de frios. Ela me olha com a cara mais feia do mundo. Está triste. Por quê? Sorrio. Pego-a devagar e alegre. Coloco-a dentro do carrinho e vou em direção ao caixa.

     Aceno para uma desconhecida que passa por mim na saída do estacionamento. De repente... essa mulher... me lembra Sophia. Digo que estou levando minha cabeça pro almoço. Ela não escuta, apenas me olha, mas é como se não me visse. Do retrovisor interno vejo-a sumir. Vai ficando para trás. Corro o mais depressa que posso. Quero chegar logo pra preparar meu almoço, antes que minha cabeça desapareça dentro de algum livro.




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